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País
As armas de Portugal e a bandeira nacional condensam quase nove séculos de identidade pátria: das cinco quinas que a tradição liga à visão de D. Afonso Henriques em Ourique, à bordadura de castelos vinda do casamento com Castela, passando pela esfera armilar de D. Manuel I e pela rutura cromática da Bandeira da República. São, na palavra dos cronistas, «as armas mais antigas da Europa que ainda hoje se usam».
| País | República Portuguesa |
|---|---|
| Origem das armas | Reinado de D. Afonso Henriques (séc. XII) |
| Forma atual do brasão | Fixada pelo Decreto de 30 de junho de 1911 |
| Bandeira nacional | Adotada a 30 de junho de 1911 |
| Esmaltes | Prata, azul, vermelho, ouro |
| Blasonamento | Escudo de prata, com cinco escudetes de azul postos em cruz e cada um carregado com cinco besantes de prata postos em sotuir; bordadura de vermelho com sete castelos de ouro |
| Proporções da bandeira | 2:3 (verde 2/5, vermelho 3/5) |
Brasão — Cinco quinas de azul em cruz, bordadura de vermelho com sete castelos de ouro.
Escudo de prata, com cinco escudetes de azul postos em cruz e cada um carregado com cinco besantes de prata postos em sotuir; bordadura de vermelho carregada com sete castelos de ouro.
A composição condensa duas memórias distintas. O escudo central — as cinco quinas — é a marca pessoal da dinastia fundadora, identificada nos selos régios desde meados do século XII. A bordadura com os castelos é uma adição posterior, do reinado de D. Afonso III, que assinala a aliança com Castela. As duas camadas, embora separadas por mais de um século, formam desde então um conjunto inseparável.
O cronista Duarte Galvão, no Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques (séc. XVI), fixa a versão clássica da lenda: na véspera da Batalha de Ourique (25 de julho de 1139), D. Afonso Henriques teria visto, em sonho, Cristo na cruz a prometer-lhe vitória sobre os cinco régulos mouros que enfrentava. As cinco quinas representariam, segundo esta leitura piedosa, as Cinco Chagas de Cristo; os vinte e cinco besantes visíveis recordariam as trinta moedas de prata de Judas, estilizadas em cinco por escudo.
A historiografia moderna — Alexandre Herculano, depois Mattoso e Manuel Artur Norton — destaca o caráter tardio do milagre: a primeira menção escrita só aparece no Livro da Cartuxa (séc. XV) e o Foral de Lamego que costuma fundamentá-lo é uma falsificação alcobacense. Os selos régios de D. Afonso Henriques mostram, isso sim, simples cargas azuis sobre campo de prata desde os anos 1140, sem qualquer alusão ao milagre. A leitura cristológica das chagas foi forjada nos séculos XIII-XIV pelos cronistas régios para sacralizar a fundação da nacionalidade.
Os besantes — círculos prateados dispostos em sotuir (X) — variaram de número durante séculos. Aparecem em maior abundância nos selos antigos (até onze por quina) e só se fixaram em cinco no século XV, sob a Casa de Avis.
D. Afonso III, ao regressar de Bolonha em 1245 e casar com D. Beatriz, filha natural de Afonso X de Castela, em 1253, acrescentou ao escudo das quinas uma bordadura de vermelho carregada de castelos de ouro. Era a forma heráldica habitual de marcar a aliança matrimonial com a Casa de Castela, cujas armas — castelo de ouro em campo de vermelho — eram universalmente reconhecidas.
O número de castelos não foi fixado de imediato. Os selos do próprio Afonso III chegam a mostrar dezasseis castelos; D. Dinis usa entre oito e doze; só com D. João I (1385–1433), após a vitória de Aljubarrota e a definitiva independência face a Castela, o número se estabiliza em sete. A escolha não é arbitrária: sete é o número simbólico da perfeição cristã e marca uma certa libertação iconográfica face ao referencial castelhano original.
c. 1140 — D. Afonso Henriques. Primeiras cargas azuis em campo de prata, sem disposição fixa, surgem nos selos régios.
c. 1200 — D. Sancho I. A disposição em cruz das cinco quinas torna-se canónica.
1253 — D. Afonso III. Acrescenta a bordadura com castelos após o casamento com D. Beatriz de Castela.
séc. XV — Casa de Avis. Número de castelos fixado em sete; besantes por quina fixados em cinco. Coroa real de quatro florões surge sobre o escudo.
1495–1521 — D. Manuel I. A esfera armilar — instrumento dos descobridores — torna-se divisa pessoal do «Venturoso» e passa a acompanhar as armas reais nas armadas e nos padrões além-mar.
1640 — Restauração. Após sessenta anos de domínio filipino, D. João IV recupera as armas tradicionais inalteradas, em sinal de continuidade dinástica.
1816–1822 — Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. A esfera armilar de ouro em campo azul é acrescentada como armas do Brasil reinol; é a única grande modificação das armas portuguesas em oito séculos.
1910–1911 — República. A Comissão das Insígnias Nacionais, presidida por João Chagas, despoja o escudo da coroa real, dos manto e cortinado, e dos lambrequins barrocos, restituindo a forma medieval pura: apenas o escudo das quinas com a bordadura de castelos. É a primeira simplificação radical em quatro séculos.
Bandeira — Verde à tralha, vermelha ao batente; brasão e esfera armilar sobrepostos na linha de divisão.
Antes de 1911, a bandeira nacional era azul e branca, com o branco à tralha e o azul ao batente, e o escudo nacional ao centro encimado pela coroa real. As suas raízes remontam ao Pendão Real de D. João I e, mais remotamente, aos esmaltes da Casa de Avis. A escolha das cores ligava o país à dinastia: azul-rei (o esmalte das quinas) e branco-prata (o esmalte do campo).
A 1 de fevereiro de 1908, o rei D. Carlos I e o seu filho herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados no Terreiro do Paço em Lisboa por dois militantes da Carbonária Portuguesa, sociedade secreta republicana fundada em 1896 por Luz de Almeida. O regicídio precipitou a crise da monarquia, que cairia menos de três anos depois.
Quando os revolucionários ocuparam Lisboa a 5 de outubro de 1910, hastearam no Paço dos Estaus a primeira bandeira republicana: verde e vermelha, com as cores do Partido Republicano e da própria Carbonária. O verde simbolizava a esperança no novo regime; o vermelho, o sangue dos que tombaram nas lutas precedentes — em particular, dos sublevados do 31 de Janeiro de 1891 no Porto.
O Governo Provisório nomeou em 16 de novembro de 1910 uma comissão para definir os novos símbolos nacionais. Composta por nove vogais, ficou conhecida pelos seus principais membros:
O resultado dos seus trabalhos foi sancionado pelo Decreto de 19 de junho de 1911 e oficialmente promulgado a 30 de junho de 1911, com a assinatura de Manuel de Arriaga, presidente da Assembleia Constituinte.
O elemento mais singular da bandeira é a esfera armilar sobreposta ao brasão na linha de divisão das duas cores. É a única bandeira nacional do mundo a portar este símbolo.
Instrumento astronómico de origem helenística (Eratóstenes, séc. III a.C.), modelo da esfera celeste com os seus círculos máximos — equador, eclíptica, trópicos, meridianos —, a esfera armilar foi indispensável aos pilotos portugueses durante os Descobrimentos para determinar a latitude pela altura do sol e das estrelas.
Tornou-se divisa pessoal de D. Manuel I «o Venturoso» (1495–1521), o monarca da expansão atlântica e índica — sob cujo reinado Vasco da Gama chegou a Calecute (1498), Pedro Álvares Cabral aportou a Porto Seguro (1500) e a armada de Fernão de Magalhães iniciou a primeira circum-navegação (1519–1522). A esfera passou aos pendões régios, depois às armas do Reino do Brasil (1815) e foi finalmente integrada na bandeira republicana como remissão direta à epopeia ultramarina.
O modelo iconográfico da esfera na bandeira atual segue a esfera de Manuel I, com oito círculos visíveis e cinco hastes axiais — o desenho que Bordalo Pinheiro fixou em 1911 a partir de gravuras manuelinas dos manuscritos da Casa Forte do Convento de Mafra.
Portugal compreende duas regiões autónomas insulares, com brasões e bandeiras próprias autorizados pela Constituição da República:
Portugal continental está dividido em dezoito distritos — divisão administrativa instituída pelo Código Administrativo de 1836 e mantida com adaptações. Cada distrito tem o seu brasão segundo as normas do Regulamento da Heráldica Autárquica (Lei n.º 53/91), com coroa mural de cinco torres (capitais de distrito) ou de quatro (vilas):
A maior parte dos brasões municipais portugueses foi sistematizada por Afonso de Dornelas e o Instituto Português de Heráldica (fundado em 1936), segundo um critério de fidelidade documental que rejeita os exageros barrocos do período monárquico.
Porque a República, instaurada em 1910, despojou o escudo de todos os atributos monárquicos — coroa real, manto, cortinado, lambrequins. Foi uma rutura intencional com a iconografia da realeza, restituindo ao escudo das quinas a sua forma medieval pura, anterior aos acréscimos barrocos. Espanha, Bélgica e o Reino Unido mantiveram a coroa porque continuam a ser monarquias.
Não. A primeira menção escrita do milagre só aparece no séc. XV, três séculos após a batalha de 1139, e o Foral de Lamego que costumava sustentá-lo é hoje pacificamente considerado uma falsificação alcobacense. Os selos régios de D. Afonso Henriques mostram cargas azuis sobre prata já na década de 1140 — o que sugere que o esquema visual antecedeu a leitura cristológica em quase três séculos. O milagre é uma construção político-religiosa dos cronistas régios do séc. XIV-XV.
Não. Salazar e o Estado Novo (1933–1974) conservaram inalterados o brasão e a bandeira republicanos de 1911, embora multiplicassem o seu uso oficial ao lado dos pavilhões corporativos e da bandeira da Mocidade Portuguesa. A continuidade simbólica facilitou a transição da Primeira República para o regime corporativo.
Durante o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815–1822) o brasão português incorporou em quartel próprio a esfera armilar de ouro sobre campo azul, herdeira das armas adotadas por D. João VI em 1816 para o Reino do Brasil. Quando D. Pedro I proclamou a independência em 1822, manteve a esfera armilar como elemento central do brasão imperial brasileiro — combinada com o ramo de café, o ramo de tabaco e o cruzeiro do sul. A esfera é, assim, um símbolo partilhado pelos dois países.
Não. Portugal é o único país do mundo a portar uma esfera armilar na sua bandeira nacional. Surgiu, contudo, como motivo principal em brasões anteriores — a esfera armilar do Reino do Brasil (1815–1822) e do Império do Brasil (1822–1889) — e ainda hoje figura nos brasões da Região Autónoma da Madeira e de vários municípios portugueses ligados aos Descobrimentos (Sagres, Lagos, Belém).
Última revisão pela equipa editorial do Emblema Mundi a 14 de junho de 2026.